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Indianara: Ícone da militância trans desafia regras e transforma vidas

Conheça a trajetória da ativista e militante trans Indianara Siqueira, criadora do curso para travestis e transexuais arrombarem as portas da universidade. A pessoa que a Justiça se nega a julgar como homem ou mulher

Por Patrick Lima, especial para o BLOG LGBT*

Indianara Siqueira, militante radical da causa trans para uns, considerada mãe para muitos outros. Idealizadora de um projeto revolucionário, o PreparaNem, curso preparatório para travestis e transexuais em busca de uma cadeira em uma universidade pública. Perseguida, escrachada, desafia as autoridades ao reivindicar o direito de andar de peito aberto nas ruas do Rio de Janeiro, cidade que fincou os pés depois de andar pelo mundo. Não há como contextualizar visibilidade trans sem pensar nesta grande referência para o segmento em todo o país.

A transexualidade no Brasil ainda é considerada um tabu, e em Paranaguá, interior do Paraná, onde a pessoa a vir se tornar Indianara nasceu e foi criada, as opressões se multiplicavam ao longo de sua infância. De origem humilde, a ativista recorda a exclusão social compulsória, que o ser ‘diferente’ das outras crianças lhe causou. “Você não tem referências, não se tem amigos nesta mesma idade com quem você possa conversar e se sentir livre por não ser a única pessoa assim. ” Aos 16 anos, após violências físicas e psicológicas, tais como repreensão da feminilidade e distanciamento de outros integrantes da família, resolveu finalmente sair de casa. “Culminou com uma agressão física de minha mãe e, disse a ela, que a partir daquele dia não colocaria mais as mãos em mim, e que não me mandava mais. ”, contou.

Em Santos, litoral paulista, nasce Indianara, juntamente com as dificuldades de uma cidade grande. “Dormia embaixo de vagão de trem, no porto de Santos, local onde as travestis se prostituiam, e lá conheci Paola”. E foi ali que tudo começou. Reconheceu suas iguais e recebeu afeto, até então, sentimento tão ausente em sua infância. “Paola, a travesti que me acolheu, me deu colo, fez minha sobrancelha e também me deu um poste (ponto), próximo ao porto, afirmando que minha estrela brilharia”, afirmou.

O ingresso na militância não tardou. Na época, residindo na ‘capital da AIDS’ (Santos), observando outras travestis e transexuais sendo atingidas e vindo a óbito pela doença, decidiu então buscar informações para tentar mudar a dura realidade desta população. “O Programa Municipal de Prevenção tinha muita dificuldade em atingir as travestis nas ruas, e eu fui me mostrando solícita e interessada em conhecer o assunto.” A partir desta aproximação, participou de algumas reuniões, onde culminou na criação do Grupo Filadélfia, em 1995, e já naquela época, há 20 anos, pleiteava na Conferência Municipal de Santos, o respeito ao nome social em prontuários médicos, para atendimento de travestis e transexuais, bem como que casais LGBT fossem considerados cônjuge no prontuário, para que pudessem ter acesso a informação e visita, que só era permitido a familiares.

Ela conseguiu garantir tudo isso, mas a publicidade também a expôs. “Com as aprovações, saí em uma página inteira no Tribuna de Santos, emissoras como TV Manchete, SBT, e nessas entrevistas, abordei também o abuso da polícia, exploração nas ruas, etc.” Após apontamentos na rua por pessoas que a reconheciam, foi algemada em um poste por um policial e ameaçada. “Depois disso, não tive como ficar. Saí”, completou.

Com o passar dos anos, morou em países da Europa, como França e Itália e foi até capa da revista Travestis – uma espécie de Playboy. Ajudou a prender cafetinas através denúncias, como o caso de Iarley, famosa por atuar no bairro de Copacabana, e até mesmo foi acusada de ser uma, na longínqua França, onde ficou encarcerada pouco mais de três anos.Engana-se quem pensa que a experiência a deprimiu. Com a ironia afiada que acompanha seus discursos, Indianara define os anos na prisão como libertadores.

“Eu brinco que quando voltar a Paris vou quebrar o aeroporto para ser presa novamente. Foi uma época de descanso e paz. Tive tempo para ler e fazer pesquisas. A minha vida inteira vivi sofrendo ameaças, lá foi o único lugar que me senti em segurança”, disse Indianara, para completar “O que mais me incomodou na prisão foi ter de levantar para mudar o canal na televisão de 17 canais. Até eu descobrir que podia ter controle remoto”.

Revolução se faz de peito aberto

Entre idas e vindas, no início dos anos 2000, a ativista se estabelece no Rio de Janeiro, onde conheceu Giselle Meirelles – idealizadora do Grupo Transrevolução. A dupla logo alavancou o coletivo, cada uma com sua característica marcante.

“Todo mundo falava que a Giselle era a grande dama, e quando ela ia para reuniões burocráticas e não conseguia que as pessoas a ouvissem, me chamava. Logo as pessoas recuavam e se calavam para ouvi-la. Sempre achavam que eu iria chegar derrubando as portas. ” A personalidade forte de Indianara, deu sequência ao projeto após o falecimento de Giselle. Hoje, o Grupo Trasrevolução, é um coletivo de referência não somente no Estado do Rio, mas em todo país, local onde são promovidas reuniões de convivência e controle social.

Dentre tantas lutas e bandeiras, em 2011, na 1ª edição da Marcha das Vadias, nasce o ato dos seios desnudos. Mulheres cisgêneras que compunham a Marcha, temiam pela sanção legal que poderiam sofrer, caso fossem detidas por atentado ao pudor. Indianara, sem pestanejar, se ofereceu para puxar o protesto. “Aceitei. Até porque não poderia ser presa, já que legalmente sou homem”.

Desafiando sua “passabilidade de mulher”, transitar com os seios desnudos se tornou um ato político constante na vida da ativista. Após 5 detenções pelo protesto “Meu peito, minha bandeira, meu direito”, hoje, a justiça se nega a julgá-la. “Se eu fosse julgada, eles estariam reconhecendo que legalmente meus documentos de homem não valem, já que estariam me lendo socialmente como mulher, e que seria condenada então por ultraje público ao pudor. Ao mesmo tempo, caso fosse absolvida, eles estariam reconhecendo legalmente que homens e mulheres não são iguais perante a lei. ” Em tom irônico, ela complementa: “Fui rejeitada até pela polícia”.

PreparaNem: a palavra é empoderamento

Em 2015, um sonho antigo de Indianara tomou vida. Há 20 anos atrás, quando era presidente do Filadélfia, nasceu a ideia de preparar travestis e transexuais para as escolas e universidades. Porém, inúmeros fatores impossibilitaram a implementação, como a falta de parceria para este tipo de projeto. “Tudo para LGBT era pautado em DST – HIV/AIDS, nunca pensavam além disso. Era impossível conseguir qualquer tipo de apoio”. Com a advento da internet e o respeito do nome social para travestis e transexuais no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o sonho se tornou possível de fato. “Após uma peça de teatro, Thiago Bassi (amigo e colaborador) me indagou sobre minha inscrição do ENEM, como forma de incentivo para outras pessoas trans. Entre uma cerveja e outra, o projeto foi tomando forma e, quando lançamos na internet, foi um boom de pessoas interessadas, e foi assim que o projeto começou”, contou.

Em seu primeiro ano, o curso acolheu 20 estudantes, algumas delas moradoras de abrigo da Prefeitura depois de viver em situação de rua. No curso, as mais fragilizadas encontraram apoio para recomeçar a vida com novas perspectivas. “A gente quer que elas saiam empoderadas, que possam sair daqui mais fortes para enfrentar o mundo machista opressor que tenta apagar nossa existência”.

O coletivo conta com a ajuda de professores e colaboradores voluntários. Mas Indianara alerta: “Conversamos como um todo, discutimos como um todo, mas são as pessoas trans que tomam as decisões. Isso além de importante, é empoderador”. Já nos primeiros seis meses de duração, o PreparaNem colheu bons frutos. Concorreu ao prêmio ‘Faz Diferença’ do O Globo, na categoria Educação, além de do bom proveito dos alunes nos vestibulares. As alunas Letícia Suhet e Gisele Lisboa, ingressaram na PUC-RIO, nos cursos de Serviço Social e Artes Cênicas, respectivamente. Para este ano que se inicia, Indianara anseia mais debates sobre travestilidade e transexualidade, a importância da multiplicação da discussão e a renovação da esperança. “Assim, outras pessoas trans, em vários lugares do mundo, por mais distante que seja, terão referências para enfim poderem se libertar”, conclui.

Os primeiros alunos do PreparaNem não se cansam de tecer elogios à ativista. Haluxx Angelstorm, primeiro homem trans a fazer o curso, fez uma ode à força de Indianara: “Uma pessoa que posso sintetizar em uma palavra, deusa. A mulher de peito e de pau que nasceu para uma das missões mais duras e de mais amor no mundo, transformar e legitimar vidas. Sua luta nunca foi por ela, mas pelos outres”, definiu.

A promotora de vendas Lara Lincoln, aluna do Prepara reconhece em Indianara papel fundamental na sua formação. “Indianara é luta. É uma pessoa em que me espelho, mesmo tendo pontos de vista diferentes. Sem dúvida nenhuma eu não seria quem eu sou hoje se não a tivesse conhecido. Antes não sabia quem eu era, não conhecia o poder da militância. Indianara é um grande exemplo, um ícone”.

Encerrando as ações da Semana da Visibilidade Trans, no dia 29 de Janeiro, às 18h, nas Cinelândia, o Grupo Transrevolução e o Coletivo PreparaNem puxarão um ato político repudiando o alto índice de assassinatos de mulheres trans e travestis, e pelo direito a existência e sobrevivência das pessoas transvestigeneres – termo usado por Indianara para englobar travestis, transexuais e transgêneros.

Fonte: O Dia – Blog LGBT

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